Miradouro das Cruzes

O neto segue titubeante pela mão firme de Eulália. A herança possível faz-se em curtos incentivos de voz doce, naquela gramática de afectos que todos as crianças reconhecem como porto seguro. Nesse trajecto com destino certo, preso à certeza de uma rotina, destilavam-se os vazios de três gerações. Diante da avó e do neto, o testamento de outras tantas. No Miradouro das Cruzes ancoram, ainda, as fragatas barulhentas de ruas e de vidas dispersas. Aqui, entre os azulejos cerúleos da moldura esperada, uma cidade sem pressa desperta, a cada instante, para a sucessão do tempo. Em postais de época havia sido poiso de cansaços ocasionais e de amores proibidos. Ali, sobre ângulos de pedra fria, a irregularidade da humanidade ganhou os foros de um dogma urbano: entre o reboliço do dia-a-dia e o preguiçar de um sonho. À sombra da velha árvore presentem-se, ainda, os rumores de um acto contínuo que se estende sobre a cúpula da igreja inglesa para definhar entre os sussurros da baía, como riso desnecessário de um menino no colo de uma anciã. Se o mundo tem na cidade a sua esquina, não deixará de ter, aqui também, a sua varanda.